Azar, Ônibus, Humor Ácido

Seu Carlos

baddriversign

Tenho uma relação de amor e ódio com os ônibus, pois aqui nascem grandes histórias minhas. E segunda passada, não foi diferente.

Na primeira grande curva do trajeto até a Barra da Tijuca meu ônibus freou bruscamente e evitou chocar-se contra a mureta que separava a pista do esgoto proveniente de todos os luxuosos condomínios da zona oeste. O que era um alento, pois dificilmente morreríamos afogados com toda aquela merda já solidificada lá embaixo.

Os adoráveis passageiros do ônibus gritaram aterrorizados, menos eu que escutava Highway To Hell naquele momento. Já bem acostumado a essas barbaridades dos motoristas cariocas não me assustei, mas diante de tantos gritos me sentir impelido a dizer algo. Tirei os fones e disse:

– Ahhhh! – mas fui um péssimo ator. A frase saiu baixa e sem dramaticidade. E me senti um idiota.

Aquela não foi a única peripécia do Seu Carlos na condução daquele ônibus. Ele ainda freou muitas e muitas vezes em cima de diversos carros e passou por cima de alguns cones no acostamento da auto estrada que liga a linha amarela a Barra. Quando desci do ônibus ele pediu desculpas, tinha perdido uma das lentes do óculos que usava.

Uma semana depois e ainda me pergunto se aqueles passageiros chegaram vivos em seus trabalhos. E Seu Carlos? Bem, ele que vá para o Inferno!

Padrão
Azar, Ônibus, Reflexão

Diabinho do Ombro

aa-angel-and-devil-on-mans-shoulder

Em mais um dia vivendo como pobre, tomei um ônibus qualquer para encurtar o trajeto até a minha casa. E lá pelas tantas, decidi sentar nos fundos do ônibus com o intuito de ficar o mais longe possível de um casal que não calava a boca um minuto –  eu queria paz.

Apreciava a horrenda vista que só os bairros da Zona Norte do RJ podem nos propiciar, ao mesmo tempo em que reclamava do duro banco que estava sentado. Ao que notei na coxa direita um ponto preto que se movia. Antes que pudesse fazer algo, aquele ilustre visitante anunciou quem era. O cheiro característico tomou conta do ambiente e precisei abrir um pouco mais as janelas para que aquele cheiro pútrido de percevejo se dissipasse. Tão logo retomei o fôlego, dei um peteleco naquele pontinho preto, lançando-o ao chão. Ele (ou ela) parecia não se importar com a agressão e absorto, caminhou vagarosamente para debaixo do banco mais próximo. Passado algum tempo, outro ponto preto foi visto no meu ombro e o espantei, sem cerimônia. Porém, após ser visitado pelo quarto habitante daquela família, subitamente, me levantei com receio de estarem caindo percevejos do teto do ônibus. (Não tinha hipótese melhor.) E com medo fui sentar em outro banco. Mas não sem antes olhar se tinham bichos ali, que fique claro!

Logo, um pai e seu filho sentaram-se onde eu estava. Parte de mim quis alertá-los sobre aqueles bichinhos mal cheirosos, porém obedeci o diabinho do meu ombro, pois, se tudo desse certo eu daria boas risadas. E foi o que houve, quando outros (ou talvez, os mesmos de outrora) curiosos percevejos começaram a explorar os novos passageiros do ônibus. A criança notou primeiro, porém, não devia saber o que era o inseto. Pois, o pegou e mostrou a seu pai – que o jogou pela janela, sem alarde. Porém, sua compostura evaporou quando foi visitado por duas daquelas ‘criaturinhas’ e aos tapas se levantou. Pegou seu filho pela cintura mesmo e rapidamente se afastou dali. Eu, claro, ri por uma vida.

E opa, meu ponto tinha chegado! Na hora de descer, me desequilibrei e dei uma forte batida com o joelho no ferro do ônibus. Por algum milagre não me lancei de cara no asfalto à frente. É, de certo estava sendo punido pela má conduta com aquela família.

Padrão
Azar, Ônibus, Mulheres

Tiroteiro Inesquecível

bus-1Voltava do shopping Nova América quando um inesperado tiroteio teve inicio. Foi como se um diretor de cinema gritasse AÇÃO! assim que meu ônibus passou na entrada principal de uma famosa favela aqui no RJ. Tive minha soneca interrompida por gritos de terror de passageiros que caíam uns sobre os outros, como um baralho de cartas. Ser acordado por tiros ainda vai, mas por gritos femininos estridentes, aí é o fim. Fiquei de mal humor.

 Eu estava sentado nos fundos do ônibus, na janela do lado direito e os colegas que estavam ao meu lado foram se protegendo como podiam. Se não fossem as pessoas próximas amontoadas e os assentos tão próximos uns dos outros, eu também teria me protegido! Mas depois de alguns segundos, a única imagem que destoava das demais naquele ônibus, era a minha cabeça à mostra – o que me fez sentir-se a pessoa mais lerda do mundo. E pra completar, eu não tinha em quem me jogar em cima.

Naquele pânico todo tentei levantar, mas a mocinha que estava ao meu lado foi mais rápida e se jogou sobre o meu colo. Senti o seu rosto se chocar contra o meu pênis. Foi o que me distraiu no meio daquele fogo cruzado. Mesmo assim, fiquei na dúvida sobre empurrá-la do meu colo ou deixá-la ali em segurança (ao menos até que precipitasse uma ereção).

Joguei meu casaco sobre a cabeça – o que já era um alento. A ideia era de que o casaco de cor escura me tornasse um alvo mais difícil de ser alvejado. Mesmo sendo uma ideia estúpida, era tudo o que me restara aquela altura do campeonato. Não sei quanto tempo demorou até que a violência voltasse a níveis aceitáveis e aquela mulher saísse do meu colo.

Definitivamente, o tiroteio mais inesquecível da minha vida.

Padrão
Ônibus, Reflexão

Feitiço contra Feiticeiro

nope736

Às vezes nosso dia é pautado por situações improváveis, o que torna tudo ainda mais memorável. E para um assalariado como eu, um desses momentos ocorreu quando um passageiro conseguiu superar ( e de longe o lado comunicativo inerente a todo trocador de ônibus). Ocorreu numa dessas noites quentes, em que seguia da Linha Amarela até a Barra da Tijuca aqui no RJ.
 
Me recordo que antes mesmo de pôr o fone de ouvido, acompanhei trechos de um debate sobre as mazelas de nossa cidade entre aqueles dois que pareciam velhos conhecidos. Apesar do volume alto da meu celular, podia entender o que aqueles dois conversavam. Entretanto, após algum tempo percebi o cobrador interagindo menos com aquele sujeito moreno e falante, sentado próximo. O homem de cabeça branca também desviava os olhares para o longe, de certo, imaginando que aquilo faria aquele ilustre desconhecido calar a boca, mas de nada adiantava. O homem gesticulava muito, assim como um pai lê com ênfase alguma história infantil aos filhos. Mas aquilo já tinha virado um monólogo – que é tudo o que algumas pessoas precisam. Então, o homem mudou de assunto e começou a falar sobre o aquecimento global e questionou aquele pobre homem (que não podia levantar-se dali) se na época de menino o calor era tão forte como nos tempos atuais. E li pelos lábios um murmurio: “Não meu filho”.
 
O Mestre da Conversação não se deu por vencido nem mesmo quando passamos pelos três túneis que nos levariam até a Barra. O ônibus que caiu na completa escuridão estaria silencioso também, se não fosse pelo empenho daquele jovem homem que não devia conversar com ninguém há meses. E do banco em que eu estava, era possível perceber o trocador pendendo para um dos lados, provavelmente cochilando.. durante as passagens pelos túneis. Ele já tinha trabalhado o dia inteiro, era totalmente compreensível.
 
Dali dois pontos, nosso amigo falante amigo desceu, ao que o cobrador (maneta) acenou, despedindo-se. Certamente, foi uma noite inesquecível para todos nós. Incluindo aquele cobrador.. que pensará 10x antes de puxar assunto com alguém novamente.
Padrão
Ônibus, Humor

Obra do Acaso

e4tdvak5dtxtcwb3q3yjVagava em um ônibus qualquer aqui no Rio de Janeiro absorto em meus pensamentos quando ouvi a inconfundível campainha do ônibus tocar. Movido pela curiosidade, fingi uma leve espreguiçada enquanto virava a cabeça para o lado observando quem iria descer, porém, ninguém veio. 

Sem ouvir mais sons, olhei pra trás e qual não foi minha surpresa ao perceber que estava sozinho naquela lata velha. Como já iria descer me levantei e me pus a procurar entre os bancos vazios alguma criança traquina ou algum anão querendo me sacanear.

É, eu estava mesmo sozinho… Que fúnebre! Diante do olhar inquisidor do cobrador pus as mãos ao alto e disse:

– Fui eu que toquei não, moço!

Já fora do ônibus relaxei enquanto pensava que não seria possível algum espírito em sã consciência querer assombrar um ônibus. Seria muita HUMILHAÇÃO no Reino dos Mortos.

Padrão