Azar, Humor Ácido, Mulheres, Natureza

Fim dos Tempos

rainynightEu nunca vou a Bangu – bairro esquecido por Deus e por mim também. Entretanto, tempos atrás encarei essa maratona por Isabela. Era ficar em casa vendo Faustão ou sair para “ver gente nova” e comer pizza na companhia agradável de minha amiga. 

Fazia um calor impiedoso aquela noite – o que me fez reclamar da ausência de um ventinho, uma brisa.. E tive minhas preces atendidas na forma de um crescente vendaval que atravessou o ônibus de lado a lado. O boné do senhor a minha frente passou raspando na minha cara e algumas pessoas, prudentemente, fecharam suas janelas. O que era para ser apenas uma chuvinha, se transformou em algo épico. Galhos de árvores chocavam-se contra a lataria do ônibus e ventos fortíssimos ameaçavam arrancar pedestres do chão. Logo, ouvimos estrondos quando transformadores explodiram e fios de alta tensão sacudiam-se no ar, como cobras venenosas.

Mulheres gritavam assustadas e os mais contidos se uniram a elas, assim que uma chuva de granizo quebrou os retrovisores e para-brisas do ônibus. No meio daquela escuridão ficamos todos aterrorizados. Uma senhora ergueu sua Bíblia e disse que o final dos tempos tinha chegado, que era o momento de nos arrependermos de nossos pecados. Foi uma orgia religiosa naquele ônibus. E o trocador repetia em resposta: “Calma gente ninguém vai morrer hoje!!” 

Um mar de água pútrida passeava pelas ruas carregando tudo que encontrava pela frente. Curiosamente, mendigos drogados e animais de rua tinham desaparecido – o que me fez pensar para onde teriam ido naquela luta pela sobrevivência. Comia furiosamente as pastilhas Valda que tinha comprado de um camelô, queria aplacar minha tosse antes do meu encontro. Por vezes, a tempestade diminuiu, mas logo as forças da natureza ressurgiam, lembrando-nos quem mandava ali. Quem não rezava, chorava copiosamente. Parecia que eu era o único adulto centrado ali.

Minhas longas pernas me ajudaram a pular todas as poças d’água no caminho até o Bangu Shopping. E me diverti sozinho pensando em como Isabela tinha encarado tudo aquilo.

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Amor, Azar, Mulheres, Natureza

Declaração de Amor

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Anos atrás, fazia pré vestibular para Economia no campus da UFRJ e logo me encantei por Priscila, uma loira hippie de vinte anos, super descolada e inteligente. Depois de algum tempo de amizade, decidi me declarar no jardim que ficava nos fundos do prédio onde estudávamos.

O lugar possuía uma beleza ímpar e era cheio de árvores, besouros voadores, formigas e toda sorte de bicho nojento que só um jardim possui. Mas o ponto alto era a quantidade e diversidade de borboletas que atraídas por aqueles dois visitantes vez por outra se aproximavam.

Priscila alheia a aquilo tudo acendeu um cigarro e ficamos falando amenidades. Quando senti que teria sucesso em minha aproximação, acarinhei seu cabelo e tão logo comentei que uma borboleta de asas amarelas pousara em seu ombro, Priscila deu um grito e desmaiou, caindo no meu colo. E eu magrelo que só, fiquei tentando segurar aquela menina e ao mesmo tempo não me desequilibrar do velho banco de cimento.

E o maior receio além de pensar que a paixão da minha vida tinha morrido nos meus braços, era de que alguém visse a cena e achasse que eu tinha matado-a. Tentei em vão despertá-la da dimensão que se encontrava. Todavia, um episódio do Chaves iluminou minha mente. E contrariando a Lei Maria da Penha, dei uns tapas no seu rosto fazendo-a despertar aos poucos.

Infelizmente, aquele romântico desmaio foi o contato mais próximo que tivemos. Nunca mais paquerei a moça com aversão mortal a borboletas (motefobia) novamente.

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Azar, Natureza

Friozinho gostoso

originally-sang-frosty-snowman_bd5b8b7458dc381fO dia começou lindo aqui na minha cidade, fazia um friozinho gostoso, daqueles que dá até vontade de ser espremido num dos trens da SuperVia só pra ficar aquecidinho. 

Quando os primeiros pingos de chuva caíram todos os humanos perto de mim sacaram seus guardas chuva. E pobre de mim, que só pude me abrigar embaixo de uma marquise qualquer. Só sai de lá pra fazer sinal ao ônibus – que passou direto – e eu lá reclamando sozinho com o braço esticado. Ao que parou um táxi, de certo pensando que fazia sinal pra ele. A porta se abriu e me senti pressionado a entrar no amarelinho.

É uma dessas situações da vida que você fica sem graça em não obedecer. É igual quando vem aqueles sem teto no ônibus jogando uma bala com papel no teu colo: “Me ajude comprando essas balas!”. Você simplesmente ajuda.

Adormeci minutos depois que o simpático senhor ligou o aquecedor. Ainda me espreguiçava quando o taxímetro virou pra R$30 reais e arregalei os olhos!

Quanto tempo eu havia dormido?? Deu aquele aperto gostoso no coração quando lembrei que só tinha moedas no bolso. Encolhido no banco, comecei a escorregar pela cadeira apenas preso pelo cinto, ao que o motorista perguntou surpreso: “Tá tudo bem meu filho?”

Eu balançava a cabeça e repetia meu mantra: “Isso não está acontecendo, isto não esta acontecendo..” Com o motorista concentrado no trânsito, tentei abrir a porta, talvez saltar do táxi em movimento como nos filmes Hollywoodianos, mas a porta estava trancada. Só restava uma alternativa.. abrir alguns botões da minha camisa e esperar que isso despertasse algum sentimento de pena (ou tesão) no motorista. Não é possível que aquele seria o fim da minha masculinidade!

Comecei a procurar em minha mochila algum dinheiro – que eu já sabia que não tinha – mas as vezes tudo que precisamos é ocupar a mente por algum tempo. O único sorriso que eu dei aquela manhã foi quando abri a minha agenda – sim, eu ainda uso este objeto arcaico – e caiu a meus pés uma nota de R$50 reais.

Respirei aliviado.

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Simbiose

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Noite passada, caminhava apressado pelas ruas de meu bairro. De barriga vazia procurava algum comércio aberto vendendo comida de qualidade, bem não encontrei e decidi ir para um trailer onde vendiam sanduíches.

E eis que ao passar por frondosas árvores senti aquele cheiro, aquela fragrância deliciosa, aquele odor ímpar de percevejo.

E comecei a me benzer, passando a mão por todo meu corpo achando que o bicho estava em mim. Baguncei o cabelo, sacudi minha camisa no ar, enfiei a mão até dentro da cueca na tentativa do bicho cair do meu corpo ou eu matá-lo com todos aqueles movimentos.

E deu resultado, o cheiro sumiu.

Passei pelo point do bairro onde só frequentam meninos e meninas que tem idade para serem meus filhos, os ignorei. Rumei para meu destino e lá sentado esperando meu lanche, senti novamente aquele cheiro de percevejo.

Segurei firmemente o grito quando vi aquele bicho pousado no meu ombro esquerdo. Motivado pelos excessivos filmes de ficção científica que assisto, imaginei desde o bicho voar na minha cara e me cegar com aquele pó das asas a morder minha pele e me passar uma doença terrível. Quase tive um treco!

Para não alarmar as pessoas que lá comiam com aquele nauseante cheiro, deixei nosso amiguinho da floresta no meu ombro até chegar na porta de casa. E o esmaguei carinhosamente dando uma ombrada na parede.

Adeus ser infernal!

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