Azar, Infância, Mulheres

Playboy da Depressão

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Estava aqui relembrando da primeira vez que tomei vacina antitetânica… Eu tinha 17 anos e passava minhas férias em Mimoso, Espírito Santo.

Estava empoleirado em uma frondosa mangueira no quintal do meu avô, folheando a Playboy da Cida Marques até que meu primo comentou que alguém se aproximava; era um amigo de minha irmã mais velha.

E eu naquele misto de vergonha e nervosismo pulei da árvore no intuito de esconder a revista e PIMBA cai direto sobre um prego enferrujado preso a uma madeira, que atravessou meu pé direito. Claro, fui parar no único hospital da cidade. E se você acha os hospitais públicos ruins na capital, deveria experimentar os do interior brasileiro; são ainda mais modestos. A injeção foi uma delícia e me fez gritar como um bebê.

Mas o pior nem foi isso, e sim ter perdido a minha Playboy da Cidinha. Jamais achei aquela revista. Simplesmente desapareceu aos pés daquela árvore.

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Animais, Infância

Meu Primeiro Gato

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Ainda me lembro do primeiro gato que tive na vida: era um gato preto, vira lata que achei nas ruas do meu bairro, em São Gonçalo, cidade metropolitana do RJ. Eu tinha 14 anos e morava com o meu pai e minha madrasta bruxa. Naquela época eu já tinha fascínio por aracnídeos, logo, já tinha um animal de estimação. Porém, minha madrasta dizia que aranha era um bicho nojento e que eu deveria ser como as pessoas normais que tinham cachorro ou gato.

Na noite seguinte, choveu muito e caiu granizo por toda Colubandê (meu bairro) e o destemido aqui foi resgatar um dos gatos que miavam alto naquela noite. Todavia, minha coragem cessou quando dezenas de pedrinhas de gelo chocaram-se com a minha cabeça. E dei por encerrada aquela pequena aventura. Mas, na manhã seguinte dei a sorte de encontrar uma gata preta embaixo de um carro. Ela estava bem sujinha e assustada.

Meu pai ainda dormia com sua mulher e eu fiquei na sala um longo período com as mãos no queixo olhando aquele gato. Ela com as pernas esticadas quase encostando a barriga no chão e fiquei pensando se meu primeiro gato era deficiente. Mas não, ela só estava aprendendo a movimentar todas aquelas patas.

Daí fui todo feliz acordar meu pai pra contar a novidade, sai abrindo a porta do quarto e.. peguei os dois transando! Foi uma cena engraçada: Eu segurando o gato pelas duas patas dianteiras e abrindo a porta com a cabeça e mal disse:

– Elza olha o que eu ach.. – e escutei um sonoro:
– Sai daqui filho!

Constrangimentos à parte, minha madrasta deu o nome de “Fofa” a nova membra da família Alves.

Lembro que lá em casa tinha uma pequena tv 14 polegadas, nada pomposa – raridade entre os lares brasileiros de hoje em dia. E em dias de frio, Fofa se aquecia em cima da tv e quando dormia, seu rabo caía sobre a tela. Era engraçado e irritante, ainda mais porque acabávamos perdendo as melhores cenas dos filmes. E não adiantava, a cada vez que a enxotávamos com a vassoura, a gata preta subia novamente, tão logo esquecíamos do assunto.

Ela viveu mais de uma década. E nos marcou, com certeza.

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Azar, Humor, Infância

A História da Laranja

Superstition

Quando morava com minha avó, uma de suas simpatias era pendurar cascas inteiras de laranja nas portas da casa para trazer sorte para a família. Dona Antônia era habilidosa e nunca danificou uma casca sequer, sempre cortava certinho. E aquele ‘serzinho’ vivo logo se tornava parte de nosso cotidiano, parte de nossa família.

Tentei continuar com esta tradição, mas minha habilidade estava restrita aos cortes nos dedos, que mais tarde deixariam cicatrizes na mão esquerda. Frustrado, acabava cortando a casca pela metade e trazia azar para a família.

Na vida adulta, tomei como desafio pessoal realizar essa proeza com maestria. E no tempo em que fiquei desempregado foi uma de minhas distrações. Errei bastante e comi tanta laranja que fiquei com vitamina C no sangue suficiente para quatro pessoas – não sei como não morri.

Mas um belo dia consegui. E no outro também. E no outro. Seguindo os passos de minha avó pendurei as cascas nas portas dos quartos pra guardar nosso sono. Minha mãe, claro, não gostou.

A casca, logo apodreceu e atraiu insetos para a casa. Em pouco tempo, aquele cheirinho maravilhoso da laranja mudou para um cheiro estranho e azedo. Mas, ao menos trouxe sorte pra minha família! Pena minha avó não ter vivido para presenciar o neto todo orgulhoso pelo feito.

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Azar, Infância

Cinzas Mágicas

Redemption

Na minha pré adolescência, eu era viciado em num videogame chamado Playstation. Minha família era bastante pobre e, logicamente, nunca tive dinheiro pra comprar um. Por sorte, um amigo de família abastada também era fã e jogávamos até tarde da noite.

O Plínio era um bom sujeito e sempre deixava eu jogar após arrumar e varrer seu quarto. Confesso também que adorava quando tinha que arrumar sua coleção extensa de revistas em quadrinhos, viajava nesses momentos…

Como recompensa, meu amigo deixava eu comer os pacotes de biscoito que achasse pelo seu quarto. E sempre tinha um e outro perdido embaixo da cama.

E numa dessas arrumações, encontrei uma caixinha de metal bastante suja. Assoprei aquela poeira e joguei o conteúdo no chão, varrendo com o resto do lixo.

Enquanto varria o lixo para a pá, meu amigo retornou ao quarto e comentei com ele sobre aquela misteriosa caixinha:

– Seu maluco eram as cinzas da minha avó – assustou-se, Plinio.
– Mentira! – respondi, consciente de que tinha feito merda.

Imediatamente me abaixei e sai catando aquele punhado de “terra”. Difícil mesmo foi diferenciar a poeira do que eram os restos mortais da falecida avó. Bem, nunca saberei ao certo quantos % de sua querida vovó foi ao lixo por engano naquela tarde.

 

 

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Azar, Infância, Insetos

Indiana Jones

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Faço parte de uma geração que cresceu assistindo filmes do Indiana Jones; as aventuras dele sempre me fascinaram. E certa vez decidi “desbravar” uma floresta próxima a casa de meu avô em ES.

Acompanhado de um primo – que sempre topava essas maluquices, cruzamos um pequeno riacho e adentramos uma floresta em que os mais velhos costumavam caçar rãs. A cada passo a vegetação se tornava ainda mais intransponível, era um mato espesso, que por vezes prendiam nossas pernas.

Meu primo ia na frente com o canivete cortando tudo que ele considerava “planta selvagem”. Ainda assim nossa pele foi bastante castigada no trajeto. Alegres pernilongos nos davam boas vindas a todo momento. Ficamos cortados e com coceiras.

Chegamos a um campo aberto que parecia saído das planícies tranquilas e verdejantes do Senhor dos Anéis. A natureza se mostrava complacente e me senti muito bem ali.

Pessoas do interior tem mania de não repetirem a palavra “cobra” no meio do mato, dizem que traz má sorte. E claro, esquecendo-me disto, apontei um movimento suspeito a minha esquerda e falei que poderia ser uma cobra. Ronaldo começou a gritar e a correr a ermo e fui atrás dele também gritando.

Cansados, chegamos a uma clareira onde retomamos o fôlego. E incansável no quesito “fazer merda”, pulei num declive. A terra era fofa, gostosa e não me importei quando meus joelhos sumiram. Mas as passadas ficaram difíceis, pesadas. Minhas pernas foram as próximas a desaparecerem, uma reação natural a meus movimentos. Meu primo distraído com outra coisa não percebeu que eu estava sumindo. Fiquei sacudindo os braços com a “terra” plana cobrindo meu peito. A essa altura eu já tinha chamado todos os santos que conhecia. E com dificuldade meu primo me ajudou a sair dali.

Poucas pessoas conhecerão além do cinema a sensação de pavor ao serem tragadas por areia movediça. Acertadamente, jamais tornei a cruzar aquele riacho que dava acesso a mata. Aquele lugar se tornou proibido para mim.

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Azar, Infância

Criança Terrível

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Desde novo, eu sempre aprontei o que me rendeu muitas cicatrizes e ossos quebrados.

E numa dessas vezes, quebrei o braço direito e o engessei por inteiro, creio que tinha uns quartoze anos aquela época. Passei um longo e tedioso período em casa, não podia sair, não podia brincar, enfim tinha que “sossegar o facho”, como dizia a minha mãe.

Só que criança não para quieta e sozinho descobri como tirar meu braço do gesso. E foi uma alegria só. Pulava, brincava.. e antes que minha mãe chegasse em casa, eu o colocava de volta e fingia ser um bom menino.

Eu ainda teria ficado mais tempo com o gesso só pra continuar sendo paparicado por todos da família, mas logo voltei ao médico e tirei aquele trambolho do meu braço. Diante das radiografias o médico me perguntou se tinha feito algo diferente nas últimas semanas e diante dos olhares severos de minha mãe, revelei ter tirado o braço do gesso “uma ou duas vezes”. Ele pensou um pouco e naquela serenidade toda mandou que eu olhasse alguns quadros que estavam pendurados na parede, ao meu lado esquerdo. Obedeci e quando estava distraído ele deu uma martelada no meu braço partindo de novo o osso mal calcificado. Só não posso mensurar a dor porque fazem muitos anos, mas lembro que chorei por uma vida inteira.

Ao final da consulta não foi preciso que prometesse manter o braço quieto dentro do gesso. E antes de ir embora, o Dr. Renato me deu um pirulito.

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