Azar, Ônibus, Humor Ácido

Seu Carlos

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Tenho uma relação de amor e ódio com os ônibus, pois aqui nascem grandes histórias minhas. E segunda passada, não foi diferente.

Na primeira grande curva do trajeto até a Barra da Tijuca meu ônibus freou bruscamente e evitou chocar-se contra a mureta que separava a pista do esgoto proveniente de todos os luxuosos condomínios da zona oeste. O que era um alento, pois dificilmente morreríamos afogados com toda aquela merda já solidificada lá embaixo.

Os adoráveis passageiros do ônibus gritaram aterrorizados, menos eu que escutava Highway To Hell naquele momento. Já bem acostumado a essas barbaridades dos motoristas cariocas não me assustei, mas diante de tantos gritos me sentir impelido a dizer algo. Tirei os fones e disse:

– Ahhhh! – mas fui um péssimo ator. A frase saiu baixa e sem dramaticidade. E me senti um idiota.

Aquela não foi a única peripécia do Seu Carlos na condução daquele ônibus. Ele ainda freou muitas e muitas vezes em cima de diversos carros e passou por cima de alguns cones no acostamento da auto estrada que liga a linha amarela a Barra. Quando desci do ônibus ele pediu desculpas, tinha perdido uma das lentes do óculos que usava.

Uma semana depois e ainda me pergunto se aqueles passageiros chegaram vivos em seus trabalhos. E Seu Carlos? Bem, ele que vá para o Inferno!

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Humor Ácido, Mulheres

Vagão Feminino

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Nos trens cariocas criaram um vagão especial só para mulheres. Ele é pintado de rosa, numa alusão as nossas queridas companheiras. O aviso na porta deixa claro que a entrada de homens é proibida. Mas o cartaz é desnecessário. Homem nenhum em sã consciência entraria naquele vagão.

Imaginem dezenas de mulheres falando sobre resumos de novelas, esmalte para as unhas, sobre os “gatos do trabalho”, sobre o BBB, sobre a TPM, sobre promoção de sapatos, sobre como o namorado não combina as roupas ou sobre a(s) “mocréia(s) do Facebook” durante toda a viagem. Um verdadeiro martírio. É muita futilidade para compensar uma viagem inteira num vagão mais confortável.

O que teria de homem pulando na linha férrea com o trem em movimento…

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Azar, Humor Ácido

Programação Saudável

TEENAGE CHILDREN WATCH TV - TELEVISION WESTERN, 1956Certa vez, zapeando pela tv à cabo na casa de meu avô, topei com o filme do canal 150 da SKY – que não era um dos filmes mais saudáveis para assistir com familiares.

A não ser que você não veja problemas em gritar para sua mãe, na cozinha: “Mãe tá passando “Dando de Primeira” na TV, corre!”

Na pressa para mudar de canal, fiz malabarismo com o controle remoto e apertei vários botões. Porém, senti meus dedos moles como borracha – fruto do nervosismo – pois, a sala estava cheia de crianças.

À exceção deste fato, foi uma animada manhã no interior de Espírito Santo.

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Azar, Humor Ácido, Mal Humor, Reflexão

Virada de Ano

reveillon_de_vitoria_2016-1439935124-770-ePassei meu último réveillon longe de amigos, familiares, paqueras.. enfim, de qualquer pessoa que eu tivesse a menor afinidade. Cruzei com muitas pessoas pela rua.. todos tão alegres, felizes.. Nem parecia que estávamos todos nas imediações do famoso Complexo “armado” do Alemão.

Fui na direção do som alto que ecoava todo meu bairro. O coração meio que acelerou, ansiando por boas vibrações vindas daquele local. Cheguei ao “Mega Evento” e ouvi a voz insossa de algum apresentador mala da Rede Globo. Pensei em dar meia volta. Mas pera lá, é só o que tem pra hoje, vamos lá..

Na praça onde eu fazia barra e paralela, crianças se penduravam como animais fazendo a velha tintura se descascar ainda mais. Mas evitei xingar, pois mantinha a ideia fixa de que se me educasse passaria 2012 sem xingar. Claro.. mera ilusão.. assim como na virada de 2011 prometi que não ficaria até tarde na net. E olha eu aqui!

Alguns simpáticos desconhecidos me convidaram para tomar umas e demos boas risadas. Na volta para casa, pensei naquelas pessoas e nas promessas de ligarmos e de mantermos contato..

Mas eu meio que sabia que não os procuraria. A gente fica com essa intuição, esse pressentimento, não adianta. Foi só coisa de momento mesmo.

Esta foi minha bela virada de ano.

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Humor Ácido, Mulheres, Reflexão

Louis Armstrong e a TransCarioca

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As obras da TransCarioca aqui no Rio de Janeiro tem deixado muita gente irritada – menos os operários da obra, que além de terem um emprego ainda podem paquerar todas as mulheres que passam por eles. E foi o que aconteceu na manhã desta sexta feira. Eu seguia rumo a Botafogo num ônibus lotado (novidade) ouvindo meu antigo mp4 e, infelizmente, meu ônibus entrou numa dessas ruas apinhadas de concreto e entulho, próxima à Avenida Brasil.

Sem nada pra fazer, fiquei olhando pela janela as ruas esburacadas e cheias de poeira. E foi aí que passou uma loiraça de calça justíssima na frente da tal obra. “O progresso da Cidade pode esperar!” – pensaram os operários ao deixar os martelos e chapas de ferro de lado para paquerarem a moça.

Eu também me surpreendi com a aparição da moça, pois, não sei de onde surgiu. Terá ela saído debaixo de alguma pedra? Jornal, talvez? Porque ela simplesmente brotou do nada, ali. Alguns operários cochichavam sobre a bela mulher, outros assobiavam e professavam juras de amor. E tudo isso ao som de What A Wonderful World do Louis Armstrong – que era o que tocava naquele momento no meu mp4. A cena foi deveras poética, acreditem.

E eu ali dentro do ônibus preso ao trânsito, impotente. Tal como Prometeu amarrado eternamente a uma rocha. A música já tinha acabado e os rapazes afoitos latiam algo para a moça que se mostrava indiferente a todos. Ela tinha seduzido-os, mesmo sem querer. Até meu ônibus a seguia, andando a meros cinco quilômetros por hora. Quando voltei meu olhar a loira, percebi que mexia na bolsa – imaginei que fosse uma arma, mas não, era só uma balinha de hortelã perdida. Nesta manhã, eu e operários cariocas suspiraram aliviados. Ufa!

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Fim dos Tempos

rainynightEu nunca vou a Bangu – bairro esquecido por Deus e por mim também. Entretanto, tempos atrás encarei essa maratona por Isabela. Era ficar em casa vendo Faustão ou sair para “ver gente nova” e comer pizza na companhia agradável de minha amiga. 

Fazia um calor impiedoso aquela noite – o que me fez reclamar da ausência de um ventinho, uma brisa.. E tive minhas preces atendidas na forma de um crescente vendaval que atravessou o ônibus de lado a lado. O boné do senhor a minha frente passou raspando na minha cara e algumas pessoas, prudentemente, fecharam suas janelas. O que era para ser apenas uma chuvinha, se transformou em algo épico. Galhos de árvores chocavam-se contra a lataria do ônibus e ventos fortíssimos ameaçavam arrancar pedestres do chão. Logo, ouvimos estrondos quando transformadores explodiram e fios de alta tensão sacudiam-se no ar, como cobras venenosas.

Mulheres gritavam assustadas e os mais contidos se uniram a elas, assim que uma chuva de granizo quebrou os retrovisores e para-brisas do ônibus. No meio daquela escuridão ficamos todos aterrorizados. Uma senhora ergueu sua Bíblia e disse que o final dos tempos tinha chegado, que era o momento de nos arrependermos de nossos pecados. Foi uma orgia religiosa naquele ônibus. E o trocador repetia em resposta: “Calma gente ninguém vai morrer hoje!!” 

Um mar de água pútrida passeava pelas ruas carregando tudo que encontrava pela frente. Curiosamente, mendigos drogados e animais de rua tinham desaparecido – o que me fez pensar para onde teriam ido naquela luta pela sobrevivência. Comia furiosamente as pastilhas Valda que tinha comprado de um camelô, queria aplacar minha tosse antes do meu encontro. Por vezes, a tempestade diminuiu, mas logo as forças da natureza ressurgiam, lembrando-nos quem mandava ali. Quem não rezava, chorava copiosamente. Parecia que eu era o único adulto centrado ali.

Minhas longas pernas me ajudaram a pular todas as poças d’água no caminho até o Bangu Shopping. E me diverti sozinho pensando em como Isabela tinha encarado tudo aquilo.

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Azar, Humor Ácido, Mulheres

Dentistas – Meu Pesadelo

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Eu não gosto de dentista. Nunca gostei. Mas.. antes que todos meus dentes caíssem decidi ir numa consulta. Durante a avaliação a dentista dizia, pensativa:
– É… Esse dente… hummm – e após uma pausa: “Aqui nesse cantinho.. hummm”

Eu não sabia que aquilo queria dizer e imaginei as coisas mais diversas. Pedaços de algodão nas laterais da boca a mantinham aberta e me impediam de falar. Estava fazendo frente a beleza indiscutível do Pedro de Lara.

A dentista então foi taxativa:
– Vamos ter que usar a broca em uma cárie.

E usou. Eu aguentei o quanto pude. Tentei pensar no meu videogame, na última mulher que tinha beijado, o que eu tinha comido no almoço. Mas não consegui me distrair. De olhos fechados minha mente focava naquele barulho e me vi com a língua cortada, engasgando com meu próprio sangue.

Aquela tortura não terminava nunca. E num ímpeto erguei a mão e agarrei o braço da Dra. Silvia – que me deu um esporro memorável. Com o rabo entre as pernas fui para casa envergonhado.

Hoje em dia escovo os dentes toda semana para não precisar voltar mais ao dentista. 😀

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